Tudo é uma questão de empatia

A previsão do tempo de domingo dizia sol e calor. Fui passear, gravar vídeo no meu bairro e depois voltei pra casa pra relaxar. Como era fim de semana, me dei um desconto e pedi comida no Uber Eats. Percebi que o entregador chinês vinha andando e já pensei: “ih, vai demorar.

Aqui em Nova York é comum ver gente fazendo entrega a pé. Como eu não tava com muita fome, não achei tão ruim. Mas, minutos depois, caiu o mundo. Ouvi barulho de trovão e meu namorado disse que viu um raio quando estava no carro.

Depois, recebo notificação avisando que a comida ia atrasar. Tudo bem! Só quem tomou um banho de chuva nessas tempestades do verão de Nova York sabe como é forte e pode deixar tudo encharcado. Por isso, mandei mensagem pro moço e disse: “Tudo bem se precisar cancelar. Não sabia que ia chover tanto.

Fiquei sem resposta. Ele não me retornou, mas também não cancelou. Devia estar precisando do dinheiro. Tempos de pandemia, né?!

Bom, a estimativa dizia mais 15 minutos e o mapa dizia que o entregador estava desorientado. Perdidinho no meu bairro! Respirei fundo. Mas lembrei como é horrível esse toró. Uma vez até perdi meu par de Vans cor de rosa numa dessas chuvaradas inesperadas.

Por fim, o entregador chegou pontualmente. Na mesma hora que o meu namorado, que foi quem recebeu a sacola.

Agora deixa eu confessar uma coisa: 

No começo, quando o rastreamento parecia louco e o atraso crescente, já tinha decidido deixar uma avaliação baixa pro rapaz. Mas, no fim, tudo chegou certinho. Não tinha pra quê reclamar, né? Fiquei de boa.

Pula pra quinta-feira: dia que eu dou aulas pra alunos na China e Taiwan manhã e noite.

Na última aula da manhã, um aluno aparece faltando dois minutos pra acabar a aula (!!!). Pensei na hora: se eu não falar com ele, ele vai pensar que o ignorei e ele vai me deixar uma nota baixa.

Basta eu receber uma nota oito pra baixar meu rating e me fazer perder dinheiro. Então, falei com ele, meio que rápido, e torci pra ele não me prejudicar. 

No mesmo dia, mas agora no turno da noite, dou atenção aos quatro alunos equivalentemente. Sou paciente, sincera, carismática. Explico tudo direito. No fim, recebo nota oito de um aluno que eu ajudei bastante. 

Se vai baixar o salário no fim do mês? Talvez. Mas já foi o bastante pra me desanimar e lembrar como eu odeio esse sistema de avaliar pessoas tão rapidamente e superficialmente. 

Lá no domingo, eu quase estraguei o dia de alguém se não tivesse tido um pouco de empatia. Na quinta, estragaram o meu. Seria legal se mais pessoas tivessem o mesmo pensamento de se preocupar com os outros também.

Não sei quem inventou essa modinha de dar estrelas ou notas pra profissionais em sites ou aplicativos. Mas, se eu pudesse voltar no tempo, diria para o cidadão o seguinte: “meu amigo, tente fazer uma entrega de comida a pé no meio de um temporal ou dar aula de inglês online pra alunos chineses.Aposto que ele ia desistir dessa idéia maledita.

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